EMPRESA RECEBEU MILHÕES, MAS DIGITALIZOU APENAS 8% DOS PRONTUÁRIOS DA SANTA CASA
Empresa contratada com capacidade prevista para digitalizar até 3 milhões de páginas por mês e digitalizou 3,8 milhões de documentos ao longo de aproximadamente 16 meses, segundo a investigação.
Foto: Reprodução BOMBA NA SANTA CASA.
Um contrato milionário para digitalização do acervo da Santa Casa de Campo Grande passou a ser alvo de questionamentos do Ministério Público de Mato Grosso do Sul após a constatação de que a Redvalue Tecnologia teria executado apenas uma pequena parcela do volume previsto no acordo.
A empresa foi contratada com uma capacidade estimada de até 3 milhões de páginas digitalizadas por mês. No entanto, segundo a investigação, durante aproximadamente um ano e quatro meses de contrato foram efetivamente processadas 3.818.695 páginas, o equivalente a apenas cerca de 8% das 48 milhões de páginas que corresponderiam à previsão contratual para o período.
A capacidade de 3 milhões de páginas mensais serviu como referência para estabelecer uma remuneração de R$ 150 mil por mês. Considerando aproximadamente 16 meses de contrato, a estimativa utilizada no acordo chegaria a cerca de 48 milhões de páginas.
O levantamento apresentado ao Ministério Público aponta que, até 18 de fevereiro de 2026, somente 3.818.695 páginas haviam sido efetivamente digitalizadas. Pelo valor unitário de R$ 0,05 por página, a produção comprovada corresponderia a R$ 190.934,75.
O próprio MP classifica o resultado como um desempenho “significativamente aquém do esperado” diante do porte da contratação. A investigação também aponta que o contrato não teria estabelecido metas suficientemente claras, indicadores de produtividade ou mecanismos considerados eficazes para acompanhar a execução dos serviços.
R$ 750 MIL PAGOS PARA 1,7 MILHÃO DE PÁGINAS
Outro levantamento realizado pelo GECOC reforçou os questionamentos. Entre janeiro e 16 de abril de 2025, foram comprovadas 1.772.198 páginas digitalizadas, correspondentes a R$ 88.609,90 pelo preço unitário previsto.
No mesmo período, porém, os pagamentos realizados à Redvalue chegaram a R$ 750 mil.
Segundo o Ministério Público, a diferença de R$ 661.390,10 representa valores pagos sem a correspondente execução dos serviços comprovada na documentação analisada.
A investigação também identificou problemas nas notas fiscais emitidas pela empresa. Os documentos não apresentariam a quantidade de páginas efetivamente produzidas em cada período, trazendo apenas valores globais, sem especificar o intervalo de prestação do serviço ou a produção correspondente.
CONTRATO ENVOLVIA TODO O ACERVO DOCUMENTAL
O serviço contratado não se limitava à simples digitalização. A Redvalue deveria realizar diagnóstico, higienização, preparação, digitalização, indexação e reorganização dos documentos da Santa Casa, além de integrar o material produzido aos sistemas utilizados para armazenamento do acervo da instituição.
Apesar da baixa execução apontada pela investigação, os pagamentos teriam continuado sendo realizados pela diretoria da Santa Casa sem correspondência com o volume efetivamente produzido.
TENTATIVA DE MUDAR AS REGRAS
Outro ponto destacado pelo Ministério Público envolve uma tentativa posterior de alteração do contrato.
Segundo a investigação, mesmo diante dos indícios de baixa execução e da ausência de comprovação integral dos serviços faturados, gestores da Santa Casa teriam buscado modificar os parâmetros do acordo, reduzindo a previsão de 3 milhões para 1 milhão de páginas por mês.
A alteração também previa o aumento do preço unitário para compensar a redução do volume, mantendo a remuneração máxima mensal da empresa.
Para os investigadores, a mudança passou a ser analisada dentro do contexto das demais inconsistências encontradas na execução contratual.
DIRETORIA É CITADA NA APURAÇÃO
A então diretora-presidente da Santa Casa, Alir Terra Lima, também aparece na investigação. Segundo o Ministério Público, ela teria mantido o contrato mesmo após recomendações para sua suspensão e diante de indícios de que a execução dos serviços estaria muito abaixo do volume contratado.
O caso integra a investigação que apura possíveis irregularidades em contratos da Santa Casa de Campo Grande e da Operadora Santa Casa Saúde. Os apontamentos fazem parte da apuração do Ministério Público e ainda deverão ser analisados no decorrer do procedimento, não representando, por si só, conclusão definitiva sobre eventual responsabilidade criminal dos envolvidos.
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