Liquidação do Banco Master deixa rastro de prejuízos em Mato Grosso do Sul
Previdência dos servidores de Campo Grande, Fátima do Sul, Jateí, Angélia e São Gabriel podem perder R$ 15,9 milhões
IMPCG e Banco Master: parceria que deve gerar prejuízos aos servidores da prefeitura de Campo Grande (Reprodução) Além da gestão Adriane Lopes (PP), outros quatro municípios de Mato Grosso do Sul correm o risco de sofrer prejuízos milionários em seus fundos de previdência própria em função da liquidação do Banco Master, protagonista de um dos maiores escândalos de emissão de títulos de crédito falsos por instituições que integram o Sistema Financeiro Nacional (SFN).
Os fundos previdenciários sob o risco de comprometer a aposentadoria de seus servidores, além do Instituto Municipal de Previdência de Campo grande (IMPCG), são ligados às prefeituras de Fátima do Sul, Jateí, Angélica e São Gabriel do Oeste.
O IMPCG foi o que efetuou o maior aporte nas letras financeiras do Banco Master. Relatório Analítico publicado pelo Comitê de Investimentos do órgão, com data de 31 de julho, mostra que R$ 1.382.900,58 estavam aplicados na instituição financeira agora liquidada pelo Banco Central.
O valor representa 2,77% do total de recursos do fundo previdenciário, segundo dados de julho de 2025. À época, pouco mais de R$ 50 milhões do IMPCG estavam investidos em diversas instituições financeiras.
Como o valor investido no Banco Master ultrapassa o limite máximo estabelecido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), de R$ 250 mil, o instituto terá dificuldade para recuperar todo o montante de R$ 1.382.900,58.
O resgate deveria acontecer em 2029, mas até lá, em função da liquidação, o dinheiro perde rendimentos e o IMPCG terá de entrar na fila para receber seus créditos, em data ainda incerta.
No caso do Banco Master, a estimativa é de que 1,6 milhão credores terão direito de receber cerca de R$ 41 bilhões. É o maior resgate da história do Fundo Garantidor de Créditos.

Tabela com dados de investimentos feitos pelo IMPCG em diversas instituições financeiras (Reprodução/IMPCG)
Alertas contínuos
Alertas sobre o risco de o IMPCG continuar investindo no Banco Master vêm sendo dados desde o ano passado. Em agosto de 2024, o Fórum de Representantes dos Servidores Municipais (FORSSA) cobrou publicamente transparência sobre as decisões do instituto.
Por sua vez, a mídia publicou diversas reportagens sobre o risco de o IMPCG manter dinheiro do fundo previdenciário investido no Banco Master.
Os alertas, no entanto, parecem não ter chamado a atenção dos membros do Comitê de Investimentos, presidido pela atual vice-prefeita de Campo Grande, Camilla Nascimento (PP) à época em que os investimentos no Banco Master começaram a ser feitos.
Eleita vice-prefeita na chapa de Adriane Lopes, Camilla Nascimento foi substituída na presidência do comitê por Elza Pereira da Silva. Também integram a estrutura os servidores Emerson Lopes Zeferino, Camila Rufino de Souza e Jaqueline Nael Oshiro.

Distribuição dos investimentos do IMPCG em instituições financeiras (Reprodução)
Outros municípios
De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Previdência, o regime próprio de previdência social (RPPS) de Fátima do Sul investiu cerca de R$ 7 milhões no Banco Master. Chama a atenção o valor elevado se comparado com o que foi investido pelo IMPCG.
Jateí aparece com aproximadamente R$ 2,5 milhões, enquanto Angélica investiu cerca de R$ 2 milhões. Em São Gabriel do Oeste, o fundo previdenciário local aplicou por volta de R$ 3 milhões.
Risco elevado
A situação preocupa especialistas e órgãos de controle porque, ao contrário de outras modalidades de investimento consideradas de baixo risco, as letras financeiras do Master não possuem garantias em caso de insolvência.
Com a liquidação extrajudicial, o processo de recuperação desses valores tende a ser lento e incerto. Caso a recuperação seja parcial — ou inexistente — haverá impacto direto no equilíbrio atuarial dos fundos municipais.
A Polícia Federal também abriu uma frente de investigação para apurar as circunstâncias da venda desses títulos a fundos previdenciários públicos.
A suspeita é de que gestores do banco tenham oferecido produtos financeiros inadequados para entes públicos, com risco superior ao perfil recomendado para recursos destinados ao pagamento de aposentadorias e pensões.
Vulnerabilidade
Embora os maiores valores investidos por RPPS estejam concentrados no Rio de Janeiro, a participação dos municípios de Mato Grosso do Sul no episódio revela a vulnerabilidade mesmo de fundos pequenos ou médios, que muitas vezes contam com estruturas técnicas reduzidas para análise de risco financeiro.
A situação já mobiliza debates sobre transparência e governança dos RPPS, reforçando a necessidade de supervisão mais rígida e de políticas de investimento que priorizem segurança e liquidez — especialmente quando se trata de verbas essenciais ao futuro dos servidores municipais.




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